Crise é hora de cortar investimentos em inovação? (parte 2)

Há alguns dias abordamos, no artigo “Crise é hora de cortar investimentos? (parte 1)”, a iniciativa inovadora da empresa Dália Alimentos, de Encantado, e grupos de pequenos agricultores/empreendedores para o desenvolvimento de condomínios produtores de leite nos municípios de Nova Bréscia, Roca Sales, Arroio do Meio e Candelária.

Debatida a crise da indústria leiteira gaúcha, devido à desconfiança gerada pelos sucessivos escândalos de fraude, somam-se a esta as crises política federal e econômica federal e estadual, que geram a perspectiva de retração das atividades produtivas, comerciais e de serviços, como fatores motivadores, para a maioria, de reanálise e, geralmente, suspensão ou postergação do investimento. Mas o que permite que os investidores possam ter minimizados os riscos sobre seus recursos aplicados?

Dentre as ferramentas disponíveis, o desenvolvimento de novos Modelos de Negócios diferenciados, únicos, que apresentem sincronismo entre as quatro principais áreas de um negócio: clientes, oferta, infraestrutura e viabilidade financeira. Para análise do Modelo de Negócios desenvolvido, utilizaremos as nove perspectivas propostas pela ferramenta canvas, que permite melhor descrição, visualização, avaliação e alteração de Modelos de Negócios (segmentos de clientes, proposta de valor, canais, relacionamento com clientes, fontes de receitas, recursos principais, atividades-chave, parcerias principais e estrutura de custo).

Sem título

Iniciando a análise pela área de clientes, a partir da perspectiva de segmentação, o novo negócio permite aos condomínios o atendimento à indústria leiteira que busca por leite com qualidade diferenciada, grandes volumes por unidade produtora e em quantidades regulares. Já à indústria, além do benefício da garantia de fornecimento de quantidades de matéria-prima regulares, há a possibilidade de desenvolvimento de produtos diferenciados, com maior valor agregado, atendendo a um público com exigências diferenciadas. Produtos alicerçados nos padrões de qualidade, muitos dos quais diretamente influenciados pela automação de processos de ordenha ou sua ausência. No caso proposto os incrementos qualitativos serão significativos, pois os possíveis pontos de contaminação serão minimizados.

Quanto à área de oferta, em relação à proposta de valor, devido à genética diferenciada, manejo padronizado e a dieta balanceada, bem como da minimização do stress destes proporcionado pela robotização do processo, é possível a entrega de grandes quantidades de matéria-prima diferenciada e controlada, em volumes constantes à indústria. Como resultados esperados do projeto para o condomínio, entende-se que a produtividade e a longevidade das vacas leiteiras serão ganhos da proposta de valor.

Os volumes e qualidade obtidos, além das condições possibilitadas pela genética e pela alimentação, são proporcionados pelo sistema robotizado que permite que cada animal decida qual o melhor momento para sua ordenha, minimizando o stress proporcionado pelo sistema tradicional (com horários definidos para o processo). O sistema robotizado contribui também para o controle sobre a qualidade do leite e de saúde dos animais, através da análise instantânea dos materiais obtidos em cada processo, reduzindo os riscos.

Apesar de não ser utilizado canal de distribuição diferenciado do utilizado no sistema tradicional, a qualidade, a concentração de volumes em um só produtor e a confiabilidade proporcionada pelos processos de ordenha nos condomínios propiciam menores custos logísticos e de controle de qualidade da matéria-prima à indústria. E, no médio prazo, contribuindo com as perspectivas da proposta de valor, podem oportunizar o lançamento de produtos diferenciados nas gôndolas dos mercados, visto tratar-se de processo 100% controlado e rastreado.

Em relação ao relacionamento com clientes, considerando a parceria entre o condomínio (fornecedor) e a indústria, a cocriação do novo negócio e a gestão a ser desenvolvida por profissionais vinculados à indústria em cada um dos condomínios possibilitam ainda maior vigilância sobre a qualidade dos processos e dos produtos confiáveis e controlados, base da parceria comprador-fornecedor. A atuação conjunta entre produtores e indústria permite providências e tomadas de decisões muito mais rápidas e efetivas, se comparadas às obtidas nos sistemas tradicionais. Também importante registrar o surgimento de um novo modelo de gestão agropecuária, onde propriedade passa a ser de fato e de direito vista com um Empreendimento SA, onde vários sócios/acionistas podem participar como investidores ou como gestores, desde que devidamente qualificados para as funções pretendidas.

Quanto às fontes de receitas, o leite fornecido à indústria será a principal, sendo este precificado em negociação entre as partes. Não podem ser desconsiderados, como possíveis fontes de receita, os produtos secundários, e não destinados ao cliente principal, da criação dos animais. Dentre os subprodutos gerados no processo pode-se destacar o esterco, material orgânico que poderá ser utilizado para geração de bioenergia e de húmus, e os animais não utilizados para a produção de leite no condomínio. Os recursos obtidos com a venda dos produtos deverão remunerar os investimentos realizados pelos produtores e a manutenção dos recursos físicos de cada condomínio.

Assim como os investimentos realizados nos recursos físicos diferenciados para a produção, as atividades-chave desenvolvidas compõem a base de geração de resultados dos condomínios. Conforme já analisado anteriormente, a produção de leite com controle contínuo de qualidade e as concentrações de quantidades diárias significativas e constantes de matéria-prima diferenciada para a indústria conferem ao sistema diferencial competitivo interessante frente ao sistema tradicionalmente utilizado.

Por fim, a estrutura de custo desenvolvida, a partir do alto investimento na mecanização dos processos, foca a manutenção da estrutura com custos fixos significativamente baixos, dada à alta mecanização e baixa demanda por mão-de-obra para o desenvolvimento das atividades, e à evolução dos custos para manutenção dos animais proporcional à ocupação do condomínio.

A análise das nove perspectivas propostas pela ferramenta canvas realizada para o novo modelo de negócio permite que sejam identificadas a sistematização da proposta e a ação de cada elemento do projeto no contexto para diferenciação do modelo desenvolvido e a sua agregação de valor. Esta reflexão permite que sejam identificadas e minimizadas lacunas no modelo concebido.

Cabe lembrar que o canvas é uma ferramenta que serve, como feito, tanto para análise de modelos de negócio desenvolvidos e para o desenvolvimento de novos negócios, com modelos diferenciados, como para o reposicionamento institucional e readequação do modelo de negócios utilizado. Aplicada em conjunto com o Radar da Inovação e com o Octógono da Inovação, ferramentas de gestão da inovação utilizados na metodologia da Innoscience Consultoria, desenvolvida pela ADMi9 Gestão Inovativa nos Vales do Taquari e Rio Pardo, são capazes de produzir importantes diferenciais às empresas atendidas.

Gustavo Greve e Jeferson Rasche – Innoscience Partners

Prof. Marcos Turatti

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