Por que o Facebook comprou o WhatsApp?

O mundo dá voltas.face

A anunciada compra do WhatsApp (aplicativo de troca de mensagens, fotos e vídeos por smartphone) pelo Facebook num negócio que pode atingir 19 bilhões de dólares surpreendeu o mundo. É 3x mais do que vale a Natura, uma das empresas brasileiras de melhor desempenho, por uma empresa de 55 funcionários que ainda não gera lucro.

Ao invés de adotar a estratégia do canivete suíço de mil e uma utilidades o WhatsApp focou numa única funcionalidade. Comunicação por mensagens via smartphones (plataforma que mais cresce). Simples. Grátis. Rápida. Fácil de usar. Abordou um problema enorme, relevante, frequente e mal solucionado pelos atuais fornecedores. Algo característico das inovações de ruptura.

Para compreender essa transação é importante entender como os líderes respondem aos inovadores, qual o racional do Facebook, os ativos do WhatsApp e de onde irá buscar o retorno do investimento.

Comecemos entendendo como os líderes respondem ao inovador. De modo geral há três alternativas:

a) Não se importando

b) Lançando contra ataque no novo modelo de negócio ou plataforma tecnológica

c) Incorporando o inovador

O Facebook optou pela terceira alternativa, comprar o inovador, assim como já havia feito com o Instagram. O mais extraordinário é que Brian Acton, um dos sócios do WhatsApp tentou anos atrás ser funcionário do Facebook e foi rejeitado. Montou, junto com Jan Koum com quem trabalhou no Yahoo, algo realmente distinto. Sem publicidade. Até o momento sem receitas (significativas).

Mas por que o Facebook investiu essa enormidade por um App que até pouco tempo atrás era gratuito e não tem um modelo de negócio estabelecido? Qual o racional dessa decisão?

Há diferentes visões sobre o tema mas a que entendo melhor traduz esse movimento e que usa as lentes de inovação para análise é o medo da ruptura. A Kodak foi suplantada pela Fuji. A Disney desafiada pela Pixar. A Apple copiada pela Microsoft. O Orkut e MySpace desbancados pelo Facebook. O Yahoo ultrapassado pelo Google. Está cada vez mais evidente que os negócios tem um ciclo de obsolescência.

Até o Facebook tem medo de se tornar irrelevante. Medo de que a plataforma mobile liquide com o modelo de sucesso atual de publicidade no Desktop utilizado pelo Facebook. Medo de que os caras que fizeram o WhatsApp possam seguir refinando a oferta e o ameaçar de forma ainda mais intensa. Medo de não conseguir ter o alcance que o WhatsApp tem nos mercados emergentes e junto aos jovens. Medo de que a migração para o sistema de mensagens seja ainda mais disruptiva. Medo de que o App se consolide como marca alternativa e possa ir expandindo seu portifolio de serviços.

Esse medo decorre do atual cenário de negócios em que vivemos. Um mundo onde a vantagem é transitória como enfatiza a Prof. Rita McGrath especialista em estratégia e inovação. Medo do ciclo de obsolescência do modelo de negócio como tantas vezes temos destacado.

Mas há outro lado dessa decisão. Incorporar o WhatsApp não é apenas tirar um concorrente do caminho. É também evitar que outros concorrentes se alavanquem a partir do App. O Google já tinha feito contatos com o WhatsApp.

Um terceiro tema a ser considerado são os ativos atuais do App. Mas o que é que o WhatsApp tem? O WhatsApp cresceu de forma rápida, muito rápida. Adquiriu 3x mais usuários do que o Facebook nos 4 primeiros anos, conforme pode ser visto no gráfico abaixo.

facebook-compra-whatsapp

O WhatsApp tem hoje 450 milhões de usuários e adquire 1 milhão de novos usuários por dia. É uma base instalada muito grande. Desses, 320 milhões usam o App diariamente, número proporcionalmente maior do que o do Facebook. O WhatsApp vem se beneficiando de uma estratégia de efeito de rede onde quanto mais pessoas usam o dispositivo mais propensos os outros estão a usa-la. O Facebook quer se beneficiar disso.

O WhatsApp é líder em mercados emergentes como Brasil, India e México. Segundo o TechCrunch na India, Brasil e México as pessoas são 12 a 63 x mais propensas a dizer que o WhatsApp é sua ferramenta de Messenger mais usada comparada ao Facebook. Esses são mercados com milhões de consumidores para o Facebook.

Mas como o Facebook conseguirá ter retorno desse investimento?

Quem sabe nem precise. Não é apenas uma aposta ofensiva mas defensiva. Zuckerberg pode até não saber como irá ganhar dinheiro com a integração do WhatsApp ao Facebook (ele garantiu que irá manter produtos separados). Menos ainda como o WhatsApp irá ser monetizado.

O que ele com certeza sabe é que poderia perder muito. Esse foi o racional fundamental.

O Facebook viu o que aconteceu com o MySpace e Orkut. Viu o que aconteceu com BBM e outros padrões que sumiram repentinamente. Acompanhou a queda da Nokia e seu sistema operacional ultrapassado.

Sabe também que como a base instalada é um ativo valorado, cresce-la comprando usuários por menor valor pode ser eficiente. O mercado de redes sociais tem sido valorado por número de usuários. O valor por usuário que o Facebook pagou pelo WhatsApp, em torno de U$ 40, é acessível dado que segundo capitalização de mercado atual e base de usuários, os usuários do Facebook valeriam 141, os do Linkedin 85 e os do Twitter 83 dólares. Enquanto o negócio de ambos for avaliado com esse múltiplo e o pagamento tenha sido feito com ações como fez o Facebook, haverá um hedge (seguro) contra perda de valor.

Mais perigoso seria não comprar e ver o WhatsApp ser incorporado por um concorrente. O Facebook fez o negócio para não abrir a porta para um outro padrão dominante.

E para que o mundo não dê mais uma volta.

Até a próxima inovação

Maximiliano Selistre Carlomagno

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3 comentários sobre “Por que o Facebook comprou o WhatsApp?

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